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Sep 12, 2014
Sep 12, 2014
Aug 26, 2014

da vida o que tenho é poeira de matéria

e criação de memória.

duração de momentos eternos,

vontade de tocar o infinito,

cheirar o tempo de olhos abertos

e o abismo. 

Aug 10, 2014

procissão 

bradamos os degradados filhos 

para que sejamos dignos das promessas

vida, doçura e esperança nossa.

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ó doce sempre virgem

gemendo e chorando nesse 

desterro

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a nós volvei

esses vossos olhos.

eia pois 

mostrai-nos.

rogais por nós.

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Jul 28, 2014

eixo

Nas minhas tardias aulas de dança, minha grande dificuldade sempre foi decorar coreografias. Algumas eu entendo e consigo seguir sem muito esforço mental. Em outras fico tão preocupada em fazer direito os lindos movimentos que me são apresentados que perco o tempo e o compasso, não sabia encaixar um movimento no outro, ficava com vergonha de errar, desistia de tentar e sentava para observar.

E chega um momento na vida que é preciso saber quais são as falhas que se deve mudar e quais se deve aceitar. Na frustração do aprendizado, descobri na teoria coreográfica uma metáfora filosófica que encaixava bem com minhas aspirações bergsonianas e lacanianas.

Coreografar é algo sobre delimitar regras de ação do corpo em relação ao espaço e ao tempo. Dançar é seguir as regras no momento presente, de corpo presente. Em uma instância em que mesmo todo ensaio não prediz o ato. Em que o que é certo é a mudança e o movimento em si. A continuidade é mais importante que os estados. É disto que se trata a duração.

E sim, como é difícil seguir o passo dos outros. É penoso, mas fazemos isso o tempo todo. A cidade nos coreografa.  Os outros nos coreografam. O tempo nos coreografa. Tudo dizendo a todo momento como o seu corpo deve agir, como a mente deve pensar, com qual espírito se deve agir. Olhem as multidões, todas elas iguais com seus passos apressados, a cabeça baixa, a postura que não é lá essas coisas e o peso, o peso do dia a dia dos rostos. Rostos também, todos iguais na fadiga. 

Fora dos passos pré-marcados, a dança contemporânea e a performance me permitem abraçar o improviso como método coreográfico pessoal. Uma gambiarra conceitual para poder me concentrar no que realmente me intessa: o exercício, a descoberta incessante e o prazer de fazer do corpo pincel do espaço e do tempo.Ocupar os vazios com a presença. E tudo bem já que nunca almejei repetir passos com perfeição, mas ver até onde consigo ir com meus próprios passos e erros.

Quando a regra se dissolve em não seguir regra alguma, que não as construídas pela minha própria experiência, é preciso encontrar algo em que se firmar. Ainda sou uma redatora e coerência no roteiro é fundamental. Bergson, meu companheiro de noites e diálogos internos, fala sobre as linhas de tendência e usa a intuição como método filosófico que fareja, não a execução exata dos fatos, mas o campo em que as escolhas geram consequências. E que novas escolhas partem daí em um fluxo incessante de consciência e ação. 

É algo sobre saber onde lançar a rede e, a partir do que se conseguir, definir o próximo esforço. É saber o que se pode pegar com a rede e o que se deve descartar. É aceitar o mistério sem perder o eixo. Ou melhor, é encontrar o eixo na indefinição, com a intuição de quem sabe se reconhecer, mesmo sem padrão definido.  É ter consciência de que nada é sólido e que a realidade nada mais é que aquilo que nos convém, enquanto essência humana, e como campo de construção.

Tudo isso para dizer que o eixo ainda é vago. E talvez sempre será.

E é nesse vagar que está o próprio eixo, fluído e persistente, de ser e estar. Acredito que isto é o mais próximo da verdade que consigo chegar. Aqui e lá. 

»»

imagens, performances e edição: mirelle martins

trilha: marginals + mtakara (bootleg gravado na casa do mancha, 2013) 

Jun 18, 2014

demorou anos para perceber que a vida não muda do dia para a noite. muda no dia após o outro.

movemoment.tumblr.com
Jun 15, 2014
pés
Jun 12, 2014

pés

Jun 3, 2014
Jun 1, 2014
veias de sangue
veios de ouro
onde corre a vida
o tempo e o sopro.
de valia, coisa alguma
era mais ser em sentir.
sem ter, só a fazer.
por fazer.
por se fazer, só a
ser.
veias de ouro,
veios de sangue.
da terra que há de comer
há de se ter mais que consolo.
no solo compasso de vir.
na memória da matéria
há sim aquela artéria,
infinita de mistério,
água rasa espelhando imensidão.
é no frouxo vazio que está
tudo o que segura,
gente e querer
querer de existência
ausência e querência.


(há saber no que é e no que não está)



 

simultâneo #1
fotos: alexandre furcolin f.  
May 30, 2014

simultâneo #1

fotos: alexandre furcolin f.  

microjardinagem
beleza de restos inúteis
(para manoel de barros)
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May 30, 2014

microjardinagem

beleza de restos inúteis

(para manoel de barros)

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May 16, 2014

teste de luz e escuridão #1 

todos verão
ensaio de silvana garzaro
May 16, 2014
May 11, 2014

carta ao filho (que não tive, mas que virá)

monólogo inspirado no texto do amigo Idê Magno. foi criado especialmente para a minha primeira audição teatral para o projeto TeatroSolo na Oficina Cultural Oswald de Andrade.

você não se importa que eu continue os meus exercícios, né? é que eu decidi que vou ser bailarina esse ano, veja só. quer dizer, percebi que sou uma bailarina e preciso aprender algumas coisas. e, você sabe, com 30 anos já não há tempo a perder… mas isso é outra história. o que eu queria mesmo era contar a minha própria história, sabe? mas aí eu comecei a pensar: o que faz a minha história tão especial assim que mereça ser contada? só porque eu a vivi, eu a sofri? só? 

e tem outra, o que faz uma história ser realmente minha? se o tempo todo somos atravessados pelas outras pessoas?  essa pinta aqui ó, é do meu pai. a timidez da minha mãe. esse cabelo, tem uma atriz da globo que tem igual. o meu apartamento eu achei no google. um gato, adotei no facebook, a outra peguei na rua. 

o que a gente diz que é decisão, na verdade é só reação. às circunstancias, aos outros. os outros. os outros. são tantos outros.

agora me diz, e eu com isso? e eu?

uma noite, caímos na cama exaustos, suados, ofegantes, plenos um do outro. ele disse entre sorrisos: vamos ter um filho logo! e me abraçou. vamos ter um filho logo. sim sim sim! claro! mas não agora. ainda estou nova, tenho muito o que fazer. vamos esperar, 1 ano, o que é 1 ano? vai ser perfeito. só mais um tempo. e daqui um ano, barriga, leite, madrugada, destino. 1 ano. um tempo. e estarei pronta. e serei mãe, sua mãe, meu filho. 

ele acordou, um pouco mais cedo do que eu, como sempre. foi tomar banho, eu fingia que dormia. ele voltou com aquelas gotinhas ainda escorrendo pelas costas. devia ser verão… entrava um raio de sol lindo pela janela, invadia a cama. ele sentou nesse sol. eu fingia que dormia. mas de olhos entreabertos eu o via. vestiu as meias, a calça, a camisa. aquele sol. eu fingia que dormia. eu o lia. ele saiu, sem dizer bom dia. eu fingia que dormia. eu sonhava. 

já não havia amor entre nós. nem tristeza, nem raiva. nada. não existia mais ”nós”. não existiam mais “planos”. nem “vida”. e você não foi nem concebido, filho. não, não. em mim você já existia. como vontade. ah, como eu queria. sim eu queria muito um filho. como eu penso em você. e aposto que conseguiria cuidar de você sozinha, conseguiria sim! não, eu não quero um marido, ele não era o pai. não precisa de pai! eu consigo sozinha. eu consigo sozinha! eu já era sua mãe. eu sou. eu quero o meu filho!

e se isto aqui não é um cenário de morte, eu não entendo mesmo nada da vida. mas foi aqui que, por sorte ou por uma razão ainda mais humana do que eu, foi aqui que numa certa manhã, tão errada quanto as outras, ainda não sei direito para quê, mas tive a certeza que ele viria. ele viria, sim. o meu filho.

e de repente abri os olhos para uma pequena existência que, podendo multiplicar a minha própria, me deu a incerta coragem de te ver os olhos, filho.

Carta ao filho (que não tive, mas que virá):  

Meu filho,

Não me julgue mal pelos meus atos todos entrecortados pelo medo e pela minha falta de habilidade com a vida, com a minha e com a sua. Espero que seja livre o suficiente para se perder de mim e do que mais queira quando chegada a hora.

Você não vai crescer sozinho, mas um dia estará só. E preste muita atenção a tua volta, nos vapores e nos olhos das pessoas. No que elas dizem, mas no que de fato fazem. Preste muita atenção porque nunca se sabe o dia em que o céu vai estar azul. Nunca se sabe de nada, meu filho, apenas que as coisas são como são e, com algum esforço, você poderá fazer parte da transformação. 

enquanto a mim, sua mãe… se não posso ser mãe do meu próprio filho, posso ser, eu mesma, ora flor, ora terra, ora semente. deste corpo, de onde era para nascer o seu… agora brotam movimentos, quedas, descobertas… quero ser fecundada por ideias que sirvam à natureza, à matéria, à memoría. Ao amor e a você, meu filho, que virá, não sei quando, não sei onde. mas virá.

ser mais um, contra o tempo. 

https://soundcloud.com/jucaramarcal/canc-a-o-pra-ninar-oxum